Tempo de Recordar – nº 12

Por Sebastião Deister

A USINA DE VERA CRUZ

A chegada de energia elétrica à área do Tinguá ocorreu tão somente em 1926, graças ao nascimento da empresa BERNARDES, LAGROTTA & CIA, fundada  em 13 de dezembro daquele ano pelos amigos Ângelo Lagrotta e Edmundo Peralta Bernardes. Após os estatutos publicados no Diário Oficial, instalou-se em Paty do Alferes a SOCIEDADE ANÔNIMA FORÇA E LUZ VERA CRUZ – Concessionária de Iluminação Pública e Particular.

O nome da companhia não era muito pomposo, mas os benefícios que ela trouxe para a região foram incalculáveis. Afinal, podemos imaginar o quanto os povos da Serra sofriam com a falta de energia elétrica em suas casas, vendo-se obrigados a se valer de velas e lamparinas malcheirosas em suas casas e de lampiões de carbureto pelas ruelas de suas cidadezinhas.

Ter um grande rádio de válvulas RCA Victor para ouvir música ou notícias do Rio de Janeiro, dispor de um refrigerador nos bares ou simplesmente ir a uma ladainha nas igrejas à luz de lâmpadas constituíram um luxo e uma enorme alegria para patienses, portelenses e miguelenses, sendo que tais benesses apenas se tornaram possíveis em razão do espírito empreendedor e solidário de Lagrotta e Edmundo Peralta Bernardes.

As pioneiras instalações da usina foram montadas  na chamada cachoeira de Manga Larga de Cima, já que a topografia do local e seu entorno prestavam-se muito bem à construção pretendida, com acesso fácil ao centro de Paty e com uma vazão de água bastante razoável para a movimentação de seus geradores e dínamos. Os trabalhos correram sem maiores contratempos, e por conseguinte as autoridades vassourenses e o povo serrano puderam acompanhar com grande júbilo a inauguração das dependências da Companhia Força e Luz Vera Cruz no ano de 1926, talvez o fator de maior prosperidade para Paty e Miguel Pereira depois do advento da Estrada de Ferro.

Cerca de dois anos depois, entusiasmados pelo sucesso da companhia, seus diretores partiram para Vera Cruz, lá erguendo junto ao rio Santana uma usina de maior capacidade equipada com geradores mais potentes e  modernos. Com efeito, foi  a partir de Vera Cruz que a empresa alcançou seu maior progresso, ampliando a oferta de energia de forma tão significativa que em pouco tempo ela passava a ser fornecida tanto para nossa região como um todo (indo também para Arcozelo, Avelar e Conrado) quanto para a área da Baixada Fluminense, atendendo parte de Queimados, Vila da Cava e Nova Iguaçu.

Posteriormente, com a entrada em operação das casas de retransmissão em Santa Branca, um grande fluxo de energia passou a ser vendido para Petrópolis, o que bem dá uma idéia da importância da Usina de Vera Cruz para a Serra em geral. Depois da grande enchente de 1945 – que destruiu tanto a Manga Larga quanto a Usina de Vera Cruz – a empresa não logrou retomar seu sucesso anterior. Por conseqüência, em 1960 a companhia foi encampada pela Light, que já monopolizava o fornecimento de energia para grande parte do Estado do Rio de Janeiro após a inauguração de suas instalações em Ribeirão das Lajes.

Em Vera Cruz, hoje, permanecem tão somente as ruínas de um dos mais ousados empreendimentos humanos de nossa terra, a lembrar a fibra e a visão de futuro de homens muito especiais que realmente lutaram pelo crescimento sócio-econômico da Serra do Tinguá, entre os quais Ângelo Lagrotta, Edmundo Peralta Bernardes, Antônio Ramos da Silva (Antoniquinho), Lauro de Barros, Raul Machado Bitencourt, Clemente José Monteiro, Luís Vianna, Abílio Casa Nova, Wilson Brasil e os funcionários dos seus últimos tempos, como Ernesto, Dario, Cecílio, Humberto “Corcunda”, Nelson, Geninho, Gervásio, Benjamim, Mello, Geny, Osmarina e Lígia Bernardes.

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2 Respostas para “Tempo de Recordar – nº 12

  1. Caro Deister,
    Meus parabéns pela bela matéria.
    Você teria informações históricas adicionais disponíveis sobre a SA Força e Luz Vera Cruz? O que aconteceu após 1945? As usinas fora, recuperadas? Voltaram a funcionar?

    Seria interessante, por exemplo, a existência de registros fotograficos sobre a construção das usinas

    Abs,
    Rafael Kelman

  2. Gilberto Carlos de Oliveira Santos

    Adorei esta reportagem. Nasci nesta região, em Vera Cruz,onde morei até os 6 anos , Saí aos 14 anos de idade, fui para o centro de Miguel Pereira, aos 19 fui trabalhar fora. Hoje, aos 60, tenho uma casa onde o terreno (ao fundo) fica a represa onde analisava a água para mover as turbinas que levava energia elétrica para minha casa em Engenheiro Adel e Arcádia, onde morei entre os 6 e 14 anos

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