Tempo de Recordar – nº 13

Por Sebastião Deister

A PESTE EM MIGUEL PEREIRA

Em 1938, Miguel Pereira viu-se às voltas com uma verdadeira tragédia: um surto de peste bubônica nascido a partir do péssimo armazenamento de alimentos nos  fundos do velho armazém administrado por Calmério Rodrigues Ferreira, o Juju.

De fato, a carência de refrigeradores de boa qualidade, a falta de informação sobre higiene básica na manipulação de víveres, a não existência de serviços de saúde apropriados e o descuido com a estocagem de mantimentos facilmente deterioráveis – como cereais, linguiças, toucinhos, salame, presuntos, carne-seca e queijos, entre outros – criaram o caldo no qual as bactérias, o mofo e um verdadeiro exército de baratas, carunchos e besouros famigerados multiplicavam-se às centenas e circulavam sem maiores problemas pelos armazéns da pequena e indefesa Miguel Pereira de então, perfurando, cortando, corroendo, devorando, contaminando e destruindo de forma implacável e impiedosa tudo que encontravam pela frente.

AS MORTES CAUSADAS PELA PESTE

Num abrir e piscar de olhos, cinco vidas preciosas foram  ceifadas pelo invisível carrasco da peste. Morriam Siloc e Nilton Ferreira “Tintas” (dois irmãos), Enéas de Almeida Machado (primo dos dois primeiros e os três sobrinhos de Juju) e Sebastião (um tio de Enéas), todos, portanto, membros de uma mesma  família, além de outro jovem de 16 anos, de apelido  Zinho, empregado do mesmo armazém.

Na verdade, suspeitou-se na época que a peste teria chegado em um carregamento de arroz já infectado vindo de Minas, mas isto tornou-se irrelevante em face do perigo que tal moléstia representava para uma vila onde os recursos médicos eram limitados e o atendimento hospitalar simplesmente não existia .

Felizmente, a imediata e corajosa ação dos médicos locais logrou restringir o mal, circunscrevendo-o a Miguel Pereira. Contagiosa, assustadora  e inapelável, a peste obrigou o isolamento de casas comerciais e a desinfecção dos trens que seguiam para Japeri, afastou visitantes e turistas, fez diminuir as compras nos armazéns, paralisou obras em hotéis e até mesmo levou os fiéis a buscar socorro religioso junto ao vigário Frei Leandro Nowak, na Igreja de Santo Antônio.

Os profissionais médicos da época mergulharam de corpo e alma naquela guerra inesperada: Dr. Osvaldo de Araújo Lima – o primeiro a diagnosticar a doença -, Dr. Radamés Marzullo e João Plínio Werneck não mediram esforços, cuidados e despesas no sentido de debelar aquela insidiosa enfermidade.

 A REPERCUSSÃO DA TRAGÉDIA

Jornais da época cobriram o fatos de maneira objetiva e sem grandes sensacionalismos, colaborando assim para que aquela tragédia fosse encarada com seriedade no Rio de Janeiro. Com isso, a imprensa levou as autoridades a encetar um imediato trabalho de socorro para Miguel Pereira, cujos resultados traduziram-se na eliminação do surto em tempo relativamente curto em função dos serviços especializados trazidos à Serra pelo Dr. Mário Pinotti, então chefe da Equipe de Sanitaristas da Divisão de Saúde Pública da capital  da República.

2 Respostas para “Tempo de Recordar – nº 13

  1. Conhecimento nunca é demais, principalmente de lugares adjacentes tão queridos pra nós. Parabéns.

  2. denir lauriano ferreira

    Parabens ao Sr. Sebastião Deister pelos grandes conhecimentos dos fatos narrados e pela maneira clara com que apresentou o seu trabalho, permitindo valiosas informações aos leitores.

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