Tempo de Recordar – nº 2

Por Sebastião Deister

O POUSO DOS TROPEIROS

Nos albores do século XVIII, em vista das dificuldades de pronto assentamento de fazendeiros e de seus escravos em algumas freguesias do Tinguá já reconhecidas pelo Reino Português, os pioneiros mais resolutos organizavam tão simplesmente a chamada “roça de alimentos”, em geral constituída por rústicos e até mesmo vacilantes casebres de palha amarrada com cipó e cobertos com sapê, em cujo interior resguardavam-se os víveres em geral, as armas, a cangalhas das mulas e até mesmo as vestimentas dos exploradores. Muitas vezes, quando dos períodos de fortes tempestades, as bestas de cargas ou os cavalos dos chefes de expedição pernoitavam dentro de tais choças, compartilhando assim teto, conforto e segurança com seus donos.

Via de regra, o pouso dos tropeiros assinalava o fim de uma jornada diária, e nele acoitavam-se homens, mulheres, crianças, escravos, viajantes desgarrados, indígenas, padres missionários e outros agregados durante as épocas mais gélidas das colinas. Tratava-se, é claro, de um recanto tosco e muitas vezes improvisado, sem qualquer tipo de comodidade e higiene, levantado apenas com quatro grossos esteios de madeira que formavam um quadrilátero coberto por folhas de bananeiras, tendo no solo um apanhado de grandes ramagens de coqueiro ou palmeira sobre as quais estendiam-se algumas mantas e capotes à guisa de colchão… À frente do rancho, acendia-se uma fogueira para intimidar eventuais animais noturnos, sendo seu fogo aproveitado para aquecer a comida e espantar o implacável frio das montanhas, enquanto sua fumaça era direcionada contra as miríades de insetos que infernizavam o sono dos exaustos peregrinos do sertão.

Com o tempo, esses precários telheiros ganhavam a vizinhança de cabanas mais seguras e confortáveis, ou então um lavrador de imediato arava uma nesga de terra na tentativa de cultivar verduras, legumes ou outros produtos que contribuíssem para sua subsistência… Por conseguinte, o rancho de pouso evoluía ano após ano com o assentamento de outros pioneiros, novas choupanas brotavam pelas cercanias em questão de dias, rudimentares cercas de bambu delimitavam os lotes de posseiros mais diligentes e finalmente algumas senhoras dispunham-se a erguer por ali uma capela para suas preces diárias.

Portanto, com a lenta, porém irreversível multiplicação de moradores e com o trânsito freqüente de caravanas pelos arredores, as terras contíguas à ermida católica eram logo aforadas e nelas desabrochavam firmes e esperançosas as pequeninas casas de comércio destinadas a abastecer as moradias daqueles corajosos fazedores de História.

Com a oficialização dos povoados oriundos dos velhos pousos de tropeiros, a cana-de-açúcar – que antecedeu o fecundo cultivo de café – veio a ser amplamente explorada pelos lavradores das roças serranas que dela extraíam o açúcar para uso próprio e também para exportação, a cachaça tão apreciada pelos rudes homens do sertão e a rapadura e o melado fornecidos como alimento básico aos escravos e indígenas… De fato, a implantação de grandes alambiques, com a subseqüente e rentável indústria de aguardente, garantiu belos lucros à notável Fazenda Pau Grande e exerceu forte influência no Sertão da Paraíba e mais especificamente na Fazenda de Ubá (de José Rodrigues da Cruz), origem da atual localidade vassourense batizada como Andrade Pinto.

 

WERNECK: ÚLTIMO ENGENHO DE AÇÚCAR

O nome deste logradouro paraibano foi dado em homenagem ao 2º Barão de Palmeiras (João Quirino da Rocha Werneck), responsável pela doação das terras necessárias à instalação da parada da linha férrea naquele local em 1898.

 A família do 2º Barão de Palmeiras vivia na sua confortável Fazenda Glória do Mundo, e junto dela foi mandado erguer aquele que acabou sendo o último engenho de açúcar da Paraíba, e cuja entrada em operação deu-se no ano de 1867… O grande prédio, apesar de se encontrar em estado de completo abandono, ainda pode ser visto em Werneck, e nele permanece intacta sua elegante e retilínea chaminé de tijolos aparentes que relembra a última obra dos escravos da velha Paraíba, já que o belo engenho teve os negros ali trabalhando pelo menos até o ano de 1887, quando toda a chaminé ficou pronta.

A sede original da Fazenda Glória do Mundo foi demolida em 1934 por Joaquim Vizeu, que a adquirira de D. Judite Pena, filha herdeira do Dr. Rodolfo Pena, um dos seus últimos proprietários.

Uma resposta para “Tempo de Recordar – nº 2

  1. A.C.NASCIMENTO (MAIA)

    conheço esta linda cidade desde o meu nascimento quando chegava de trem com meu pai e minha mãe na pequena estação na saudosa maria fumaça puchando seus quatro vagões. calça bombacha ,boné tipo chaves camisa de lã, a charrete do caboclo era nosso destino certo e a ida a casa de tio Antonio Maia nosso ponto final daqueles dias, a que saudade desta terra querida daqueles anos de paz…

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