Tempo de Recordar – nº 4

Por Sebastião Deister

O SANTUÁRIO DE MATOSINHOS

A devoção prestada ao Cristo Morto sempre constituiu uma atividade religiosa enraizada nos seculares costumes dos camponeses de Portugal. Nada mais natural, portanto, que lá pelos anos quarenta do século XVIII alguns imigrantes chegados da Vila de Matosinhos – situada nas cercanias da cidade do Porto – trouxessem para o Sertão da Paraíba a liturgia por eles celebrada na pátria-mãe, erguendo nas faldas orientais da Serra da Sucupira uma pequena ermida dedicada ao Bom Jesus Crucificado.

De 1773 em diante, o curato de Matosinhos, já com um peculiar esboço de Santuário, passou a se caracterizar pelo hábito de romarias e pagamentos de promessas, devendo-se a Pedro da Costa Lima o início dos rituais mais elaborados daquele templo. A modesta capela consagrada naquele ano serviu a todos os habitantes da região paraibana até 1862, quando foi substituída por uma igreja maior levantada sob os auspícios de Martinho Álvares da Silva Campos (1816-1887), então proprietário da Fazenda Engenho de Matosinhos do Sardoal (fundada em 1818 para produzir açúcar). Famoso líder de Partido Liberal, Martinho inclusive chegou ao cargo de Chefe de Ministros do Segundo Império no ano de 1881.

Credita-se ao padre Luigi Raymondo (1912-1992) a atual e belíssima Matriz de Matosinhos, na qual celebram-se missas aos sábados e domingos. Localizado a cerca de 18 quilômetros do centro de Paraíba do Sul, o Santuário recebe dezenas de milhares de romeiros e fiéis em sua festa anual, realizada sempre no último domingo do mês de agosto.

SARDOAL

Na área média do rio Fagundes – numa altitude aproximada de 300 metros, por onde também surgiu o arraial de Sebolas – essa vasta zona caracterizou-se, desde os primórdios do século XVIII, por uma proveitosa e diversificada atividade agrícola. Suas belíssimas e agradáveis várzeas – com acentuado destaque para Membeca, Rio Manso, Sertão do Calixto e Matosinhos – foram o berço de muitas famílias importantes no processo de ocupação do sertão paraibano, como, por exemplo, as estirpes de Caetano Borges da Costa, Calixto Cândido Gonçalves, Francisco Rodrigues Manso, Joaquim José dos Santos Silva e, em especial, Pedro da Costa Lima, este, como vimos acima, o criador do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos.

Na larga esplanada englobada sob o nome genérico de Sardoal, nas glebas infletidas para o alto da Serra da Estrela, Manuel Vieira Afonso adquiriu, em 1768, um sítio às margens da variante do Proença, ampliado em 1780 para constituir a fazenda batizada como Córrego Seco, esta vendida em 1830 a D. Pedro I e posteriormente urbanizada por Júlio Frederico Köeller para formar a cidade de Petrópolis.

O CEMITÉRIO DO SERTÃO DO CALIXTO

Talvez pelo fato de apresentar um vale bem extenso e fecundo, e por ser o arraial mais bem centralizado naquele perdido rincão, o Sertão do Calixto (assim denominado em função dos trabalhos lá desenvolvidos por Calixto Cândido Gonçalves) viu-se beneficiado pela Câmara Municipal de Paraíba do Sul, que ali mandou construir um cemitério que acolhesse os despojos de todos aqueles que, por tradição, encontravam-se assentados em fazendas periféricas à àrea do Sardoal, até porque, na década de 1810, a secularização de todos os tipos de inumação determinava a desativação das necrópoles que estivessem alocadas junto aos grandes latifúndios da região.

De fato, o Sertão do Calixto até hoje mostra sua face intacta de ontem histórico: de um lado da estrada que conduz ao Sardoal e ao Santuário de Matosinhos, elevam-se a Igreja do Padroeiro São Sebastião e o decrépito prédio onde funcionava seu empório comercial, construções que marginam outras vias de contato com Rio Manso e Avelar.

Já na outra margem do caminho, repousa seu multitudinário cemitério, separado da escola local pelo estreito e sinuoso caminho de saibro e argila que o conecta ao Sertão de Cavaru.

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